O que me alimenta me destrói

















25/08/2007 23:29



Os cabelos cor de piche espalhavam-se pelo balcão. Ela continuava inerte, um dos ouvidos colado ao balcão, o outro captando a música que tocava ao fundo. Cartola dizia "as rosas não falam" com uma tristeza de dar dó, ou nojo, conforme o humor dela. A melodia era chorosa, derramada, dando a exata impressão de como o Poeta se sentia na esperança desesperançada. Ela fechou os olhos e a cabeça girou deflagrando pensamentos tristes. Duas lágrimas saltaram-lhe dos olhos para o balcão, ela as lambeu e sentiu o sal do seu corpo. O nariz inundou-se no muco e mais outras lágrimas vieram a somar-se à umidade manifesta naquele rosto.
Não, ela não sentia amor. Ela não sentia a esperança desesperançada de Cartola. Ela sentia a tristeza da música, um vácuo, uma certeza de que nada seria como antes, mesmo que todos os povos resolvessem colar caquinhos e aparar arestas. No íntimo ela sabia das mudanças, certamente se acostumaria à elas, mas nunca iria se conformar.
Existem pessoas que constróem um mundinho particular, calcado em falsas ternuras e provocam cataclismas quando as coisas não querem mais correr conforme suas vontades. Formam-se tempestades sem um porquê no horizonte, e o vento desarmônico provoca um arrancar de árvores e desmantelamento de sentimentos. Ela ficava no meio da tormenta, angustiada, desesperada sem ter onde se agarrar. Se sentia muitas vezes como uma criança perdida, sem a mãe, sem comida, sem um tostão no bolso, olhando aquele céu negro. Foi assim que ela parou naquele balcão. Agarrou-se nele com tábua de salvação. Parou e debruçou-se, para tentar ouvir a voz que vinha de dentro. Os ouvidos captaram, um, o som da tristeza e o outro, a voz da alma, querendo se derramar como num alento para o corpo. As lágrimas continham o alívio da mente e um aviso: não demoraria para o sol voltar.
enviada por Heleníssima Figura






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