O que me alimenta me destrói

















23/10/2008 20:11
Ele foi um cão feliz. É o que me vem à cabeça quando penso no Piuí.
O "Bezerrão", como a Cris o chamava, veio pra gente com um mês de vida. Era um fevereiro escaldante de 1993 (se minha memória não falha), eu tinha 15 anos e o 2º colegial pela frente. A Neguita e o Peposo haviam tido um affair e pouco tempo depois uma ninhada de vira-latinhas sem-vergonha apareceu. Entre os peludinhos tava o Pi, o filhote mais bonito de todos.
Inicialmente, o Piuí era pra ter ido morar com a Cristiane, uma amiga nossa na época, porém, o irmão dela, o Bartô, não aceitou o pequeno quadrúpede na casa deles. Na sequência, arduamente, conseguimos convencer o Sr. Noé de que o Pi seria uma ótima companhia para o Branco, nosso vira-latão sênior. Quem não ficou muito feliz com isso tudo foi o próprio Branco, uma vez que ele estava perdendo o posto de xodó-mor da casa. No fim, tudo deu certo: o Branco aceitou o Piuí e eles viveram mais alguns anos como fiéis companheiros (não gays, só amigos!).
O fato é que o Piuí sempre foi encrequeiro, destruidor, voluntarioso e divertido. Uma vez, quando ele ainda nem tinha o saco escrotal desenvolvido, trepou em minha pobre canela adolescente e começou a ter "demonstrações violentas de amor" contra ela. Eu e a minha mãe choramos de rir quando eu fui retirar o bichinho de cima da minha perna: a bolinha de pêlos e gordura rosnou pela primeira vez na vida ao se ver privado de ir adiante com seus intentos "amorosos" com a minha canela.
Com o tempo ele foi crescendo, virou um cadelinho espichado, magrelo, comedor de meias, vassouras e o que mais sobrasse na reta dele. Nunca atendia quando era chamado. Mas bastava dizer "tó", que ele vinha a galope para ver se havia comida esperando-o. Barulho de embalagem sendo aberta também o atraía fortemente. Aliás, comida sempre foi sua grande paixão na vida: pulava monstruosamente em qualquer membro da família que aparecesse com um prato em punho; roubava coxinhas, pêras e o que mais pudesse das mãos mais distraídas. Era um verdadeiro glutão mal-educado!
E essa falta de educação era não só incentivada, como também idolatrada em casa. Tudo o que o Pi fizesse de safadeza era motivo pra boas gargalhadas, pra milhões de afagos e recompensas. Ele era nosso irmãozinho mais novo e mimado!
Quando ficou mais velho, começou a ter uns ataques de mau-humor de vez em quando. Era seu charme. Virava a cara por alguns minutos, depois vinha todo lindo procurar carinho, como se nada tivesse acontecido.
Até uns dias antes do seu passamento eu ficava pensando "o Piuí é que nem gato, tem 7 vidas!". O bichão teve uma parvovirose, dois acessos de doença do carrapato, vários pequenos piripaques, uma hérnia, vários tumores pelo corpo e um derrame cerebral no currículo. Sempre teimoso, passou por tudo e se recuperou bem. Tinha tesão em viver. Só que em cachorros velhos, um derrame nunca vem sozinho; depois do primeiro, outros acontecem. E aconteceu com o Piuí. O primeiro veio, o debilitou, o deixou bobo, sem coordenação. O maluco se esforçou, se recuperou, estava se fortalecendo quando, 20 dias depois, começaram as convulsões. Foram várias, algumas durando uns 5 minutos. Depois vinha o cansaço e as sequelas. O teimoso tentava lutar, mas a doença o havia debilitado demais. Tomava Gardenal e outros trocentos remédios. Tudo em vão. O coitado mal conseguia se mexer, acho que já não enxergava mais, não sabia mais o que era, não comia, não bebia. Foi se entregando, até que na madrugada do último dia 14 acordou desesperado, sem conseguir respirar. Achamos que fosse ressecamento do nariz, já que ele não conseguia nem espirrar mais. Lavamos o nariz dele com soro, ele chorou sentido, depois caiu largado, exausto na caminha que minha mãe havia arrumado pra ele. Antes de voltar pra cama, decidi com a Dani que naquela terça levaríamos o Pi a veterinário para uma avaliação e, se não houvesse mais jeito, aceitaríamos que ele fosse sacrificado. Fui trabalhar angustiada, triste, tive dor de barriga ao ver se aproximar as 5 horas da tarde.
Quando cheguei em casa, o carro não estava na garagem. Não quis entrar em desespero, pensei outras coisas, mas quando vi a porta da cozinha trancada, mal achava a chave para abrí-la. Ao conseguir entrar, vi todas as coisinhas dele pela casa, o colchãozinho na sala, vazio. Comecei a chorar, "ele piorou", pensei. Logo o portão se abriu, corri pra garagem, a Dani e a mãe lavadas em lágrimas. Choramos todas juntas. Meu amigo não conseguia mais respirar naquela tarde. Minha mãe agoniada decidiu que ele deveria ser sacrificado, e assim foi feito. À noite o vizinho da minha tia abriu a cova no jardim da frente da casa - o lugar onde o Pi adorava fazer xixi!. Peguei o Piuí, embrulhado num saco plástico, pela última vez no colo e o depositei na sua sepultura. Chorei e saí do jardim com os pés lotados de terra.
O Pi marcou demais nossa vida. Foram quase 16 anos com a gente. Queria que fossem 26, 36, até quando eu vivesse. No sábado antes de morrer, ofereci a ele 10 anos da minha vida, mas que ele os vivesse bem e sadio. Minha oferta foi recusada.
O que fica pra gente é a lição de amor que esses serezinhos deixam. Amor incondicional, que não se mede, não se pede. E sabem porque os cães vivem pouco? Porque, ao contrário dos seres humanos que nascem para aprender a amar, os cachorros já vêm ao mundo sabendo exatamente como é isso!
Amor eterno ao Piuí!


enviada por Heleníssima Figura






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