O que me alimenta me destrói

















14/10/2009 15:27
O cachorro da vizinha chama-se Joaquim. Hoje eu cheguei em casa e vi o Joaquim, gorduchão, dormindo no seu pulgueirinho no chão da garagem de sua casa. Achei tão lindo aquela raça-à-toa dormitando, que lembrei que hoje faz um ano que o Piuí se foi. Meu cão está dormindo debaixo da terra quente, virou sopa orgânica e agora aduba o jardim de outrem.
Sábado deixamos mais um capítulo de nossa história para trás. Pegamos as trouxas, nossos móveis pobres e viemos parar há algumas quadras da antiga casa. Catorze anos viraram dois quarteirões e meio! É para rir, se às vezes eu não chorasse. Por que é que alguns de nós têm tanto apego à esse mundo, né? E por que justamente eu fui ser um desses apegados? Deus sabe? Você sabe?
Talvez o negócio seja genético, do tipo "se liga, você tem o DNA do apego!", mas de quem eu puxei isso? Minha mãe diz que não tem apego com casa, aquele que emprestou esperma pra eu nascer também não se apega com nada (nem com ele mesmo)... Será que veio do meu tatatatatatatatataravô, ancestral longínquo da Itália? Ele devia ser apegado com macarrão e com a terra nostra, a cosa nostra e qualquer bosta e me legou um sentimento eterno de saudade, que eu não sei se gosto, porque ao mesmo tempo em que me faz sofrer, me faz ver com lirismo as coisas loucas dessa vida.
E por falar em vida, semana passada uma moça que conhecia muito pouco se foi. Era mais jovem que eu, mais cheia de vida que eu, tinha mais gana de viver do que eu, era mais ativa que eu... e o coração jovem a enganou, parou de bater, a deixou mais sem vida do que eu. Tão estranho que o tempo dela tenha sido tão curto! Mal falei com ela nos anos em que estive perto, mas sempre tive uma impressão legal dela, sempre a achei descolada, vencedora. Acho que ela venceu muito cedo, talvez. E isso me deixa pensativa da condição humana, o quanto pelejamos, construímos, conquistamos e deixamos tudo para trás num instante. Levamos tempo para construir as coisas e um segundo para destruí-las. Ainda assim, a vida tem poesia.
Beijosmeliga.
enviada por Heleníssima Figura






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